Renovar para restaurar a democracia no Andes

Por Fabio Venturini*

Nos muitos debates entre as chapas que concorrem à direção do Andes-SN, os representantes da Chapa 2 – Renova Andes questionam os membros da situação sobre nosso chamado à unidade na defesa da democracia, do estado de Direito e por Lula Livre. As respostas possuem alguma variação em léxico, a depender do local, mas o sentido é sempre o mesmo: não!

Em geral, o argumento é de que esses comitês são movimentos travestidos da campanha Lula 2018. Por isso, o Andes, para ser “autônomo em relação a governos”, não pode participar. A situação se agrava quando no público dos debates são levados militantes mais ferrenhos da CSP-Conlutas que aplaudem a famigerada nota que indireta e desavergonhadamente pede a prisão de Lula, diante dos quais os candidatos da chapa 1 se calam.

Cultura do escracho

Quem frequenta Congressos e CONADs está (infelizmente) habituado aos ataques pessoais quando manifesta posições distintas das da diretoria. Meu primeiro evento dessa natureza foi em Boa Vista, no fim de junho de 2016. Como delegado da minha seção sindical, a Adunifesp, recebi o mandato para solicitar ajuda ao Andes aos comitês de luta contra o golpe que formávamos nas cidades em que temos unidades acadêmicas.

Ao mencionar o golpe fui surpreendido por uma enxurrada de reações virulentas. Fui chamado de petista (não era filiado ao Partido dos Trabalhadores), cutista (como se fosse algo pessoal e moralmente depreciativo), defensor de “governos de conciliação de classes” e que fazia parte do “petismo organizado” em favor do ProIfes para acabar com a autonomia do sindicato nacional. Não sabia mais diferenciar quem era revolucionário e quem era do MBL.

O que mais me estarreceu foi ver a negação do golpe, taxando como “narrativa”, pois não havia diferença entre Dilma e Temer. Foi nesse dia que me juntei ao Renova Andes.

No Congresso de janeiro de 2017, em Cuiabá, diante da minha insistência, dois diretores, Josevaldo Cunha (UFCG) e a própria presidenta Eblin Farage (UFF), hoje candidata a secretária-geral pela chapa 1, usaram o microfone para me atacar pessoalmente na plenária por “não ter história no Andes”. A despeito de nossas divergências, que tipo de sindicato se pretende construir sem reconhecer a legitimidade de qualquer um independente da data de filiação? Ora, tomei posse em 2015 num campus da expansão. Como jornalista militava em outro sindicato. De qual forma eu poderia ter história numa entidade aonde havia acabado de chegar? Nunca, nem em disputa com os setores mais fisiológicos do sindicalismo, fui assediado com um ímpeto depurador como esse.

No entanto, o episódio que mais me chocou ocorreu no CONAD de 2017, realizado na UFF, em Nitéroi: um professor do curso de Administração da UFSC fez uma única fala no grupo de trabalho defendendo a viabilidade de parcerias público-privadas para melhorar condições de trabalho. Antes que se explicasse a ele porque o sindicato é contrário às PPPs o professor foi sumariamente escrachado. Ele se calou e não abriu mais a boca no resto da semana. Num dos intervalos eu me deparei com ele e disse:

– Professor, administradores também são bem-vindos ao sindicato.

Com um sorriso leve e cordial, respondeu:

– Obrigado pela preocupação professor.

Não apareceu mais.

Como estou numa escola de Economia, Política e Negócios, numa universidade em que o maior campus é onde se encontra a medicina, eu conseguia mentalizar uma lista de dezenas de colegas meus que não são “revolucionários” e estão dispostos a lutar pelos direitos da categoria, mas que nunca pisariam ou pisarão num sindicato por condutas como essas.

Sou militante há algum tempo e compreendo as disputas internas dos sindicatos. Estou na disputa por entender que o sindicato é necessário, deve ser protagonista e importante instrumento de lutas e reivindicações. Porém, o perfil dominante da base do Andes é o do referido professor escrachado. Temos o direito de sermos contra as PPPs, como somos, mas não pode nos faltar o dever do respeito à diversidade. Não é isso que tem ocorrido no Andes.

Diretoria e chapa de situação não mudam suas posições

No debate entre as chapas realizado no Auditório da Geografia da FFLCH/USP questionei pessoalmente os dois candidatos sobre como as suas eventuais gestões fariam para evitar que esses escrachos voltassem a ocorrer, citando o exemplo do professor da UFSC. O professor Antônio Gonçalves, candidato a presidente pela chapa 1, em vez de responder gastou alguns minutos de seu tempo criticando as PPPs como se eu as tivesse defendido, emendou atacando o ProIfes como se eu fosse do ProIfes, encerrou dizendo que os eventos do Andes são suficientemente democráticos e não deveriam ser substituídos por votações pela internet, como se eu defendesse a substituição de congressos por enquetes online.

Esse é o principal método: cria-se um factoide, um espantalho e bate-se na pessoa de posição distinta como se ela defendesse os degenerados. Em 2016 lutar contra o golpe era defender a conciliação de classes. A partir de 2017 a participação no Dia Nacional de Luta pela Educação (15 de março daquele ano) e greve geral em data que não a estipulada pela CSP-Conlutas eram uma adesão à CUT e ao ProIfes. Hoje lutar contra a perseguição política a Lula é uma forma escamoteada da campanha Lula 2018.

O golpe foi tolerado (quando não celebrado) por ter apeado o PT do governo federal. Um dirigente partidário convidado da diretoria COMEMOROU a condenação de Lula em segunda instância na UNEB do Cabula durante o congresso deste ano, o mesmo evento em que dirigente da CSP-Conlutas, na plenária de abertura, pediu “a prisão de todos os corruptos, inclusive do PT”, um dia antes do julgamento no TRF4.

Com esse pesado caixão em seus ombros, a diretoria atual e a chapa 1 condicionam a unidade a defender os direitos de Lula sem que se defenda Lula ou de uma forma que não o favoreça em campanha presidencial. No limite, é esperar que o primeiro colocado nas pesquisas de intenção de voto mofe nas masmorras de Sergio Moro para que o Andes mantenha sua autonomia. É a mesma lógica que fez boa parte dos membros da chapa 1 não colocarem os pés nas ruas enquanto Dilma não estivesse finalmente deposta.

Nesse momento, em que mais uma “delação premiada”, a de Antonio Palocci, indica que a ditadura togada tentará cassar o registro do Partido dos Trabalhadores, onde ficará o Andes? Ao lado de quem tem um mínimo de senso de justiça ou dos golpistas com quem a diretoria e a composição da chapa 1 compartilham inimigos em comum?

Seja com a atual direção ou com a composição da chapa 1, o Andes não construirá ou tolerará a ampla unidade do campo democrático-popular. Para reorientar o sindicato nacional é necessário respeitar a diversidade e não são esses os sinais da chapa 1. A prática é o critério da verdade. Tudo isso se soma a coações profissionais em casos a nós relatados, como três professores da USP, de diferentes departamentos, que nos empenharam seus votos mas pediram para não publicizar tal apoio por conta de pressões que receberam de membros e apoiadores da chapa 1 nas respectivas unidades acadêmicas. Ou da professora Ana Carolina Marsiglia, da Universidade Federal do Espírito Santo, que chegou a ser desconvidada de dois eventos científicos, um na própria UFES e outro em Minas Gerais, por ter entrado na formação da Regional Leste pela Chapa 2.

Nessa campanha vimos entre os apoiadores da chapa 1 diversos docentes e militantes que defendem justamente as posições da chapa 2: denunciar o judiciário, defender os direitos de Lula, do Estado de Direito, lutar contra o golpe, construir a unidade com todas as centrais, lutar por condições de trabalho e carreira, fazer campanhas salariais (nosso sindicato não faz campanhas salariais!)

Eles não estão conosco nas eleições, mas nos movimentos reais contra o golpe dividimos, não raro, mesas, microfones resoluções e atuação. Se a chapa 1 for eleita, continuaremos separados apenas no Andes, enquanto o sindicato continuará caminhando para o isolamento, em sua autonomia da realidade e na luta contra um governo deposto. A construção da unidade necessária no movimento docente em nível nacional passa pela vitória da Chapa 2.

*Fabio Venturini é professor da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios da Universidade Federal de São Paulo e integra a chapa Renova Andes

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